Dor torácica é a sensação de dor ou de desconforto, percebida de diversas formas, com localização na região do tórax. A maneira de sentir a dor e o modo de caracterizá-la, varia de pessoa para pessoa. Varia também, em função das condições psicológicas e do ambiente, em um determinado momento. A origem racial também pode influenciar na percepção e no grau do desconforto.

Quando falamos em dor torácica de origem cardíaca, subentende-se toda uma área de irradiação, que vai desde a mandíbula até o umbigo, incluindo ambos os braços, a região posterior do tórax, o pescoço, a mandíbula e a boca do estômago. Frente a um sintoma de dor, devemos definir os seguintes aspectos: localização, irradiação, característica, duração, fatores precipitantes, fatores que melhoram e pioram a dor e os sintomas associados.

Classificação

A dor torácica pode ser classificada em 4 categorias a partir das suas características clínicas, independente dos exames complementares.

Dor anginosa típica (tipo A):Há características de angina do peito típica e evidente, levando ao diagnóstico de doença arterial coronariana (angina do peito ou infarto do miocárdio), mesmo sem o resultado de qualquer exame complementar.





Dor provavelmente anginosa (tipo B):Esse tipo de dor não possui todas as características de uma angina do peito típica, mas a doença coronariana é a principal suspeita diagnóstica.

Dor provavelmente não-anginosa (tipo C):É uma dor atípica, mas não é possível excluir totalmente o diagnóstico de doença arterial coronariana sem a realização de exames complementares.

Dor não-anginosa (tipo D):É um tipo de dor com características de origem não-coronariana, onde outro diagnóstico se sobrepõe claramente à hipótese de doença arterial coronariana.

Causas mais comum de Dor Torácica

Angina do peito:Os pacientes costumam perceber as crises de angina do peito como uma pressão, aperto ou queimação, na região central do tórax. A dor também pode atingir os ombros ou irradiar-se pela face interna dos membros superiores, costas, pescoço, maxilar ou região superior do abdome. Muitos indivíduos descrevem a sensação mais como um desconforto ou uma pressão, do que uma dor propriamente dita. Tipicamente, a angina do peito é desencadeada pela atividade física, dura alguns poucos minutos (3 a 15 minutos) e desaparece com o repouso ou com o uso de nitratos (vasodilatadores coronarianos).

A dor da angina do peito não costuma piorar com a respiração ou movimentação do tórax. O estresse emocional também pode desencadear ou piorar as crises de angina do peito. A angina do peito poderá ser chamada de estável, instável ou variante. A angina do peito estável é aquela que apresenta sempre as mesmas características, ou seja, seu fator desencadeante, a intensidade e a sua duração, costumam ser sempre os mesmos.

Na angina do peito instável, o desconforto passa a ter uma maior freqüência, intensidade ou duração, muitas vezes, aparecendo ao repouso. A angina do peito instável é uma emergência médica, pois poderá evoluir para um infarto do miocárdio ou até mesmo, à morte. A angina do peito variante, também chamada de angina de Prinzmetal, é resultante de um espasmo da artéria coronária. Esse tipo de angina do peito é chamada de variante por caracterizar-se pela ocorrência de dor com o indivíduo em repouso (geralmente à noite), e não durante o esforço ou por certas alterações eletrocardiográficas típicas.

Alguns pacientes, como os idosos, ao invés de sentirem um desconforto torácico, como manifestação de angina do peito, percebem apenas uma dificuldade respiratória (dispnéia). Esse sintoma equivale ao de angina do peito (equivalente anginoso).

Infarto do miocárdio:Embora o infarto do miocárdio possa ocorrer sem sintomas (infarto do miocárdio silencioso), fato mais comum em idosos, cerca de 80% dos casos de infarto do miocárdio sintomáticos, cursam com dor no peito. Geralmente, a dor típica do infarto do miocárdio é um desconforto torácico localizado na região central do peito, o qual pode irradiar para as costas, mandíbula, membros superiores e dorso.

A dor ainda pode ocorrer apenas em uma ou várias dessas localizações e não no peito. A dor de um infarto do miocárdio é semelhante à dor da angina do peito, porém costuma ser mais prolongada e não é aliviada pelo repouso e nem pelo uso de nitratos (vasodilatadores). Menos freqüentemente, a dor é localizada na parte superior do abdome, podendo ser confundida com uma indigestão, úlcera ou gastrite.

Durante um infarto do miocárdio, o indivíduo ainda pode apresentar uma sudorese excessiva, palidez, náuseas e vômitos, agitação, tontura, desmaio, ansiedade ou até uma sensação de morte iminente. Apesar de todos os sintomas possíveis, um em cada cinco indivíduos que sofrem um infarto do miocárdio, apresentam apenas sintomas leves ou não apresentam sintomas. Esse infarto do miocárdio, chamado de silencioso, poderá ser detectado algum tempo após a sua ocorrência, através de um eletrocardiograma de rotina.

Pericardite aguda:Normalmente, a pericardite aguda provoca febre e dor torácica. A dor pode ser semelhante à de um infarto do miocárdio, exceto pela sua tendência a piorar na posição deitada, durante a tosse ou com a respiração profunda (caráter ventilatório). A dor da pericardite aguda pode aliviar com a inclinação do tórax para frente (posição de “prece maometana”). A pericardite aguda pode levar a um derrame pleural (líquido na pleura), a qual pode acarretar um tamponamento cardíaco – um distúrbio potencialmente letal.

Dissecção aórtica aguda:Teoricamente, todo indivíduo que apresenta uma dissecção aórtica aguda sente dor, a qual geralmente é de forte intensidade, com início súbito e contínuo. Mais comumente, os pacientes sentem uma dor torácica, geralmente descrita como “dilacerante”. Também é freqüente a dor na região dorsal (parte posterior do tórax), entre as escápulas. Freqüentemente, a dor acompanha o trajeto da dissecção ao longo da aorta. Quando a dissecção avança, poderá ocorrer uma obstrução de um ponto onde uma ou mais artérias ligam-se à aorta. Dependendo de quais artérias são bloqueadas após a dissecção aórtica aguda, as conseqüências incluem um derrame cerebral, o infarto do miocárdio, insuficiência renal, dor abdominal súbita, lesão nervosa com produção de formigamento e a incapacidade de movimentar um membro. A síncope (desmaio) também poderá ser uma manifestação inicial da dissecção aórtica aguda.

Estenose da válvula aórtica:Essa doença causa sintomas típicos de angina de peito. O indivíduo com estenose aórtica grave pode desmaiar durante o esforço (síncope), pois a válvula estenosada impede que o ventrículo bombeie sangue suficiente para o cérebro e o restante do corpo. O diagnóstico da estenose aórtica, geralmente é feito após a constatação de um sopro cardíaco característico (auscultado através de um estetoscópio). Para a identificação da causa e determinação da gravidade da estenose, um ecocardiograma (exame de imagem que utiliza ondas ultra-som) deverá ser realizado. Qualquer adulto (principalmente idoso), que apresente desmaios, sintomas de angina do peito e dificuldade respiratória ao esforço, provocados por uma estenose aórtica, é encaminhado para a substituição cirúrgica da mesma.

Pneumonia e pneumotórax:A pneumonia costuma cursar com febre, tosse com catarro e falta de ar (dispnéia). A dor torácica costuma ser ao repouso, localizada em uma parte lateral do tórax, piorando com a tosse ou com a respiração. A dor do pneumotórax, também costuma ser ao repouso e piorar com a respiração – estando associada à falta de ar.

Tromboembolismo pulmonar (embolia pulmonar):Costuma causar dor torácica ao repouso e piorar com a respiração. A presença de dispnéia, taquicardia e tosse com escarro de sangue (hemoptise) são achados típicos. A presença de fatores predisponentes para trombose venosa (formação de coágulos nas vias das pernas, que são a principal causa do tromboembolismo pulmonar) – como o pós-operatório, doença maligna (câncer) e insuficiência cardíaca, entre outras – costumam estar presentes.

Gastrite, esofagite e úlcera:Essas doenças do aparelho digestivo costumam causar azia (queimação na boca do estômago), pirose (queimação no centro do tórax, no trajeto do esôfago), dor de estômago, plenitude pós-prandial, náuseas e vômitos. O desconforto costuma ser ao repouso e ter relação com a alimentação ou ingesta de álcool. A duração pode ser variável, podendo permanecer por horas. Nas doenças do estômago (gastrite e úlcera), é comum a piora do sintoma com a palpação da região da boca do estômago (epigástrio).

Dor muscular:Costuma ser lateralizada (num dos lados do tórax), ao repouso, ter duração prolongada, piorando com a respiração, movimentação ou palpação do tórax. Pode haver antecedentes de esforço muscular ou trauma.

Dor óssea (exemplo: fratura de costela):Costuma ser localizada em um local restrito, ao repouso, e prolongada, piorando com a respiração, movimentação ou palpação do tórax. Pode haver antecedentes de trauma e osteoporose (ossos frágeis).

Costo-condrite (síndrome de Tietze):Essa doença é uma inflamação da junção de uma costela com o osso esterno (no centro do tórax). Causa uma dor torácica bem localizada em um ponto, ao repouso, que costuma piorar com a respiração ou palpação do local.

Herpes Zoster:Essa doença é uma reativação do vírus da varicela, que causa uma inflamação dos nervos do tórax (neurite). A dor é localizada no trajeto do nervo, é do tipo queimação, ao repouso e de duração prolongada. A área afetada costuma ser muito sensível ao toque da pele. Pode causar dúvidas no diagnóstico, no período que antecede ao aparecimento de uma erupção com pequenas bolhas no trajeto do nervo, as quais são típicas da doença.

Doenças da vesícula biliar:A presença de pedras na vesícula (litíase biliar) ou inflamação da vesícula (colecistite aguda) costuma cursar com dor, na região do hipocôndrio direito (logo baixo das últimas costelas do lado direito). A dor costuma ser ao repouso, podendo ter relação com a alimentação (litíase biliar), cursar com febre (colecistite aguda), náuseas, vômitos e falta de apetite (colecistite aguda). A dor geralmente é tipo cólica e costuma piorar com a palpação do local (ponto cístico).

Ansiedade:A ansiedade é um sintoma que acompanha a maioria dos transtornos psiquiátricos. Em geral, são sintomas que não se enquadram em uma doença específica, muitas vezes acometendo pessoas de baixo risco para doença arterial coronariana. A localização da dor no tórax é variável, a duração variável (segundos a horas, muitas vezes intermitente, aparecendo e desaparecendo), podendo haver piora com a respiração ou palpação do tórax. É comum que este tipo de dor apenas ocorra ao repouso, não se repetindo durante uma atividade física. Um estresse emocional como fator precipitante, é um achado comum. No exame físico, não há sinais indicativos de doença orgânica.

Investigação da dor torácica

A base para o diagnóstico correto da causa da dor torácica é o exame clinico (história clínica e exame físico). Vários exames complementares podem ser solicitados para a investigação, tais como: exames de sangue (exemplo: enzimas cardíacas), radiografia do tórax, eletrocardiograma, teste de esforço, ecocardiograma, cineangiocoronariografia (cateterismo cardíaco), tomografia de tórax, angiotomografia da aorta e outros.